
peculiaridade
substantivo feminino
1. qualidade do que é peculiar;
2. característica particular ou especial; especificidade;
3. invulgaridade;
4. capacidade de ser cínico até à exaustão;
5. tipo de cócegas às 3 da manhã em sítio inatingível;
(De peculiar+-i-+-dade)
.
dessa brevidade do voo
(perpendicular à palpitação)
nada se regista
nesse assunto de leveza quase
amorfa
uma nota
de desagravo
nesta quaresma de cor*
* Os efeitos secundários desde poema incluem, entre outros:
palpitações, ânimo azedo, dores no dedo grande do pé, vontade súbita de rasgar papel, explosão de veias em locais atípicos, constipações do joelho, propensão para perseguir gatos.
Se sentir qualquer um destes efeitos, ou outros que não estejam aqui mencionados, deve visitar de imediato o/a sua poeta de serviço

Costumava gostar de livros. Até descobrir os barcos. Descobri os barcos quase por acidente, depois de me ter esbarrado de carro contra um, numa auto-estrada movimentada. A parte da frente do meu pequeno veículo tinha ficado completamente amolgada mas o casco reluzente do barco estava intacto. Pensei que se um barco era assim tão seguro em terra, certamente o seria mais ainda em mar. Às vezes pensamos coisas só porque não temos mais nada para fazer. Havia um idealismo nos barcos que sempre me deixava curvada. Gosto de curvas. Nesse dia resolvi que precisava de ter um barco.
Decidi que queria uma estrutura de madeira, algo que me lascasse as mãos. Hoje em dia toda a gente quer artifício e velocidade. Eu gosto de remar, gosto da morosidade das veias. Um barco é uma casa aberta sobre as ondas – uma possibilidade de derrapagem sem o absurdo dos travões.
A primeira vez que me aventurei no barco, remei até fora da baía – precisava de uma viagem imaginada, queria potenciar as minhas próprias páginas. Remei incessantemente até quase não ver terra. Naquele dia perturbava-me a inscrição mal desenhada da costa. Precisava de algo bem delineado. Tinha de continuar até que o mar me abraçasse na totalidade. Não era tanto uma obsessão, era uma procura de tonalidades.
Finalmente sentia-me submergida de azul, as ondas balançando através do meu corpo como aves mudando subitamente de direcção durante o voo. Estava inundada de cores. Quando voltei a mim percebi que existem desvantagens nos barcos. Aparentemente a madeira cede mais facilmente em água do que em terra.
Diálogos de um Cão saltitante
acordar prendendo os cabelos das vidraças flamejantes

Pendura-me o vento nos sinais. Rasga-me a madrugada pela espinha. Que o teu sopro dirigido seja uma espécie de hino à melancolia.

A alma morre pela boca.
O peixe morre pela procura.

a mulher-lua detém-se por debaixo do círculo. apara as madrugadas. ampara os decassílabos. por onde seria a entrada do medo? “manda-me um sms a confirmar a hora – só para eu estar já devidamente aterrada – como os aviões.”
nunca se pede só a minúcia – pede-se sobretudo a abóbada iluminada rasgando-se em rosetas – ou uma chuva potente de embarcações com rotas bem traçadas. nisso nunca se deixa de pensar os mapas. ou as alegorias.
partiu a memória em um dia que poderia ter sido quase ameno. os calendários eram quase tão detestáveis como os relógios. os relógios eram quase tão detestáveis como as horas. para as horas não havia ódio possível – derretiam-se aos pés e ainda esboçavam um sorriso. era uma questão de tempo. sabia-se que um dia um gelo iria multiplicar-se pela infinidade de caminhos e nunca mais voltar atrás. seria uma espécie de migração ao contrário. uma infusão tão forte pelas veias que a entrada da rua teria uma tabuleta dizendo: “Beco Sem Saída” – com letra helvética e a negrito. mesmo assim entrava-se e procurava-se através dos fios uma silhueta de calor. uma pegada. quando se tinha sorte descia-se pelas pegadas à transfusão do mundo. mas era uma coisa bélica de respiração forçada. não havia dentro da mitigação qualquer oceano tangível. porque a mitigação esperava as coordenadas certas e nunca andava com bússola. nessas alturas era quase audível a voz do gelo. a princípio era sempre uma memória futura de si próprio que nunca se quis cumprir. era a aurora incendiada por onde só haveria decalques das pegadas uma vez visitadas. era a aberração do vento norte e o cansaço derretido em cada poro. depois da visitação a voz prostrada era mais evidente, abrindo-se ao horizonte agora vermelho: “não me peças uma lembrança, pede-me as cores de uma ilusão funcional e duradoira – pede-me uma fábrica de seixos onde se possam inscrever desejos. olha-me como se eu fosse quase-humana. enfeita-me os cabelos como se entrançasses madeixas de luar. pe(r)de-me na multidão como se me libertasses de todas as agonias pendentes. amarra-me a alma a um salgueiro sedento junto ao rio – eu serei a água. eu posso ser a água. é por isso que me esgoto.”
| Seg | Ter | Qua | Qui | Sex | Sab | Dom |
|---|---|---|---|---|---|---|
| << < | Current | > >> | ||||
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | |
| 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 |
| 14 | 15 | 16 | 17 | 18 | 19 | 20 |
| 21 | 22 | 23 | 24 | 25 | 26 | 27 |
| 28 | 29 | 30 | 31 | |||
Um blog com poesia, prosa, fotografia, arte e bolinhos de café.
Escrito por aNa B.
Email: ana@ana-b.com.
Site: www.ana-b.com
--------------------------